Entrevista: Marcos DeBrito - Tomo Literário




cineasta e escritor Marcos DeBrito, autor do livro Palavras Interrompidas, concedeu uma entrevista exclusiva ao Tomo Literário Clube de Leitores em que ele fala sobre sua carreira, novos projetos, sobre a inspiração para a criação da história que deu origem ao livro, sobre seu processo de criação e recomenda autores, bem como fala sobre o mercado editorial, sobretudo para o gênero de suspense e terror.

A entrevista foi publicada para os integrantes do clube quando da leitura da obra que foi debatida com a presença do escritor. Agora disponibilizamos a entrevista na integra para que você, leitor do blog, possa ler.

Tomo Literário: Como foi o seu primeiro contato com o meio literário e de que forma se deu a sua decisão de escrever?

Marcos DeBrito: Eu nunca pensei que me tornaria autor de romances. Sempre gostei de escrever, sempre criei histórias, mas eram pensadas pro cinema desde cedo. Meu primeiro contato com o meio literário foi em dezembro de 2008 ou 2009, quando terminei de escrever o À Sombra da Lua. Sem saber como ingressar no ramo, comprei um ebook sobre como publicar um livro e segui as dicas. Depois que terminei a leitura, entrei em contato com o autor Ademir Pascale e nos encontramos. Ele me apresentou a uma editora pequena de gênero que negou o original. Com base nas críticas destruidoras que fizeram, reescrevi o livro inteiro e mandei pra Rocco. Assinei com a casa em setembro de 2010 e o livro só foi sair em novembro de 2012. Minha ideia era publicar só essa obra, mas o mercado me abraçou de uma maneira que eu não esperava e agora já estou no meio do meu oitavo romance.

Tomo Literário: O cinema veio primeiro na sua formação. Você acredita que isso facilitou pela experiência com os roteiros ou foi um complicador por ter que se adaptar a outro público, o leitor?

Marcos DeBrito: Facilitou bastante. Ter uma história é o que importa. O resto é formatação. No cinema as coisas são mais diretas. A gente foca mais no que poderá ser visto e escutado na tela e debruça a criatividade no subtexto dos diálogos. Pra mim é mais fácil escrever pro cinema, mas acho que consigo transitar bem entre audiovisual e literatura; encontrar as diferenças e sanar com as descrições na escrita. Os leitores que precisam me dizer (risos).

Tomo Literário: Palavras Interrompidas foi um livro que surgiu a partir do filme "As almas que dançam no escuro". Como foi a adaptação do roteiro para o livro? E como surgiu a ideia do filme?

Marcos DeBrito: Foi tranquila, até porque sempre escrevo o roteiro antes e depois adapto como romance, mesmo se não for filmá-lo. No caso do “Almas” foi até mais fácil porque o longa já estava praticamente pronto. Eu consegui assistir o primeiro corte do filme e ir escrevendo o livro conforme o via e sentia. A ideia surgiu de um convite da distribuidora que colocou o Condado Macabro nos cinemas, Telecine, Amazon... Eles queriam ser coprodutores de uma obra minha e me deram dinheiro e carta branca pra escrever o que eu quisesse. Eu estava sem ideias, mas depois que fui ao Madame Satã e visitei a plataforma de pesca que fica em Mongaguá, o filme surgiu na minha frente.

Cartaz do filme 'As almas que dançam no escuro' que deu origem
ao livro Palavras Interrompidas

Tomo Literário: Como tem sido a repercussão do filme nos canais de veiculação?

Marcos DeBrito: Ainda não sabemos porque ele estreou em julho. As respostas dos streamings vêm semestralmente ou anualmente, portanto estamos ainda aguardando. Mas a receptividade nos festivais em que entrou foram ótimas. Temos prêmios de melhor filme, roteiro, diretor e ator.

Tomo Literário: Como é o seu processo criativo para escrever? Você planeja a história, tem alguma técnica ou simplesmente vai lançando as ideias e estruturando-as na medida em que escreve?

Marcos DeBrito: Um pouco de tudo. O processo criativo não é muito linear. Primeiro costuma vir uma cena, conteúdo ou mensagem muito forte que serve pra estruturar o resto. Ela pode surgir a partir de uma ideia de personagem (como em O Escravo de Capela), como imagem final (A Casa dos Pesadelos), por locações (Palavras Interrompidas) ou na intenção de uma crítica (como Apocalipse Segundo Fausto). Mas depois que isso acontece, aí é técnica e planejamento. Preciso pensar qual será o meu final e fazer um resumo detalhado do todo antes de começar a desenvolver o texto oficial.

Tomo Literário: Quando você inicia um projeto, você já pensa nos dois formatos ou isso é algo que vai se consolidando durante o andamento do projeto?

Marcos DeBrito: Penso nos dois formatos. Na maioria das vezes, escrevo primeiro a parte audiovisual até o fim e só então parto para o livro. Mas no caso de Apocalipse Segundo Fausto e o novo que estou escrevendo agora, assim que termino uma cena do filme já escrevo o capítulo do romance. Se há alguma alteração (e sempre há), volto e altero no roteiro.

Tomo Literário: Das obras que você escreveu qual é aquela com que você mais se identifica, ou seja, aquela que você diria que representa muito bem o seu estilo enquanto escritor?

Marcos DeBrito: Difícil... Essa identificação muda de tempos em tempos, mas acredito que — apesar de eu não querer mais escrever algo parecido — o Apocalipse Segundo Fausto é meu livro mais pessoal. Ele aborda muito do que penso sobre religião e sociedade. No entanto, o estilo que me define mais como escritor é O Escravo de Capela e o À Sombra da Lua. Pretendo ter mais obras com a mesma pegada deles.


Tomo Literário: Qual dos seus personagens foi o mais difícil de construir e por qual motivo?

Marcos DeBrito: O mais difícil foi a Alana, do À Sombra da Lua. Não pela densidade ou pelos arcos dramáticos, mas por ser uma personagem por quem me apaixonei como autor, mesmo sabendo que seu fim seria o mais trágico que já escrevi. Ainda não me perdoo, mas foi imprescindível pra trama dar uma virada inesperada.

Tomo Literário: Quais são as suas impressões sobre o mercado editorial para os livros de terror, já que você teve o livro "Apocalipse Segundo Fausto" como finalista do Prêmio Jabuti? O terror tem conquistado mais leitores?

Marcos DeBrito: O mercado editorial assim como o do audiovisual sempre encararam o terror como um gênero menor. Comercialmente, no entanto, ele sempre foi forte. Há esse preconceito lá fora também no círculo acadêmico, mas quando se fala em números de exemplares e ingressos vendidos, o terror se destaca. Interessante mencionar que o Prêmio Jabuti instituiu a categoria Romance de Entretenimento justamente pra poder premiar livros que as pessoas conheciam, mas nunca teriam chance de ser finalistas. A turma mais autoral torceu o nariz, mas foi uma ótima adição ao prêmio. Hoje, é a categoria mais concorrida. E vamos ressaltar que os finalistas costumam ser justamente do gênero terror e suspense. Não só o Apocalipse Segundo Fausto foi finalista, como também o DVD do Cesar Bravo, Tortura Branca do Victor Bonini, e o vencedor foi Corpos Secos, sobre zumbi. Isso prova que estamos conquistando não só mais leitores, como também mais prestígio.

Tomo Literário: Quais são os livros e autores que você recomendaria aos nossos leitores?

Marcos DeBrito: Sempre menciono os mesmos porque não leio ficção contemporânea com tanta frequência. Recomendo tudo do Álvares de Azevedo, tendo Macário e Noite na Taverna como minhas obras de cabeceira. Nunca deixo de citar Edgar Allan Poe, como todo escritor de terror, e gosto de colocar nessa lista O Livro dos Demônios, do Antonio Augusto Fagundes Filho. Já li Goetia, Testamento de Salomão... mas esse livro do Antonio, principalmente em sua versão atualizada de 2019, é minha obra preferida sobre o tema.

Marcos DeBrito / Foto: Juliano Adriani

Tomo Literário: Tem algum projeto novo vindo por aí, tanto no audiovisual quanto na literatura? Pode nos contar um pouco sobre eles?

Marcos DeBrito: Sempre. A mente não para. No audiovisual estou aguardando algumas respostas para a adaptação do A Casa dos Pesadelos. Não posso dar certezas, mas estamos avançando. Ainda nessa mesma área, o Vozes do Joelma também está bem encaminhado. Já na literatura, estou escrevendo minha versão de como seria uma seita adoradora de um deus da antiga Canaã nos dias de hoje. Um retorno ao meu estilo mais violento dos primeiros livros.

Tomo Literário: Há algo que não abordamos e que você queira comentar? Quer deixar algum recado para os leitores do clube e do blog?

Marcos DeBrito: Apenas agradecer a oportunidade de falar sobre meus trabalhos, tentar difundir cada vez mais esse nosso gênero, e pedir aos leitores para que conheçam mais da literatura nacional e continuem dando chance para novos autores.

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