A Porta - Magda Szabó - Tomo Literário

 


Publicado originalmente em 1987, na Hungria, o livro A Porta, da escritora Magda Szabó, editado no Brasil pela Editora Intrínseca em 2021, só alcançou lugar de destaque internacional depois de sua tradução para o inglês, o que ocorreu no ano de 2005. Um típico caso de uma obra que é descoberta pelo público tempos depois de sua edição principis.

O livro entrou na lista dos Melhores Livros de 2015 do “The New York Times”. E outro fator que impulsionou seu sucesso foi a adaptação cinematográfica de 2012, estrelada pela atriz Helen Miller no papel de Emerenc, cuja produção foi intitulada Atrás da Porta.

No período pós Segunda Guerra Mundial, uma escritora culta, que tem uma relação complicada com as autoridades comunistas da Hungria, e mora com seu marido também escritor, resolve contratar uma mulher chamada Emerenc para ser sua governanta. Emerenc é analfabeta, age com certa brutalidade que, por vezes, chega a soar engraçado, tem hábitos simples, idade incerta, costuma varrer as calçadas do condomínio e se dedica a ajudar os outros.

Ela mora sozinha numa casa na qual ninguém pode passar pela porta. Nenhuma pessoa adentra aquela residência, nem mesmo os possíveis amigos e parentes mais próximos. Emerenc, com sua força, acaba assumindo o controle da casa da patroa, tornando-se assim uma figura indispensável para a realização das tarefas que surgem no lar. Contudo, além disso, ela acaba experimentando uma relação de amor com seus contratantes. Não o amor dos relacionamentos amorosos, mas um amor fraternal que surge em meio a inúmeras turbulências, algumas tantas provocadas pela própria Emerenc.

A narração da obra é feita em primeira pessoa, pela escritora que contrata a governanta. O livro ganha ares de autobiográfico, quando sabemos que Magda Szabó tem um marido escritor, viveu em conflito com o Partido Comunista Húngaro e teve seus livros proibidos entre 1949 e 1956, além de ter um prêmio literário retirado no mesmo dia em que o recebeu. Outrossim, a própria personagem narradora tem o mesmo nome da autora do livro.

Logo nas primeiras páginas a escritora confessa que foi a responsável pela morte de Emerenc. Contudo, leitor, não se assuste, porque isso não é um spoiler. A revelação feita logo no início faz parte da construção da trama e se torna um elemento a ser perseguido pelo leitor durante o desenrolar da história. Tal informação consta também da contracapa do livro (o que indica que, possivelmente, você a lerá antes de adquirir a obra).

Emerenc vai demonstrando em sua forma brusca de falar um contraponto com uma das característica que vamos descobrindo acerca dela, que é a sua capacidade de ajudar os próximos. Ela é uma mulher que pouco dorme, como é descrita na história. Por vezes está varrendo as ruas, ajudando pessoas que necessitam e, além de cuidar da casa da escritora, cuida de outras que integram o condomínio. A mulher de semblante fechado e ações inusitadas acaba se afeiçoando ao Viola – o cachorro do casal que a contrata – com quem desenvolve uma relação afetiva como se dona do animal fosse. Viola é o único que recebe passe livre para adentrar a residência da governanta.

A mulher é bastante enigmática e misteriosa. Parece carregar em sua vida algum segredo que ela não quer que seja descoberto. Notamos que há possíveis segredos em sua residência, diante de sua resistência em abrir as portas da casa. Outra passagem que revela um certo mistério é quando ela pede à patroa que permita que receba uma visita na casa dos patrões. No entanto, o que parece um simples convite casual se revela estranho quando ela prepara a refeição e utiliza os seus próprios utensílios, todos transportados de sua casa para a residência dos patrões. Ela quer passar a impressão de que vive ali com o casal.



Emerenc tem camadas que provocam no leitor um misto de sentimentos. Com a narradora vamos desvelando a verdadeira face da governanta, que apesar de seu ar nebuloso é bastante admirada pelos vizinhos. Se há sombras em seu passado, seu presente parece ser claro demais, dada a forma como ela se manifesta (ainda que os segredos não sejam todos expostos de modo imediato pela personagem).

Na medida em que a amizade entre contratante e contratada vai se firmando, ainda que haja alguns tantos percalços e contratempos que poderiam levar tal relação a um rompimento, a escritora vai descobrir como Emerenc passou pelo período da Segunda Guerra Mundial, quais foram os efeitos disso em sua vida e porque a mulher age como age, de forma insubordinadamente indomável.

O leitor é levado por uma trama instigante, com uma construção de texto com qualidade e que marca o estilo de Magda Szabó. A trama centrada nas duas mulheres nos leva a refletir sobre inúmeras ações humanas, como os laços que nos une, os segredos que cada um tem guardado para si, o respeito ao espaço do outro, a invasão desse espaço sem pedir licença, o cuidado com o outro, a intimidade que pode ser boa ou pode se revelar ardida. O livro tem nuances interessantes que podem ser observadas em todas as passagens da história.

Sem dúvida, destaco a construção da personagem Emerenc. Ela é uma mulher que salta das páginas do livro para nos ferir, nos provocar e nos fazer rir. Outro destaque é o fato de a autora conseguir trabalhar as relações humanas por meio de duas personagens tão diferentes, no entanto, tão complementares, que se fixam por um fio invisível que as une. Muitas das ações dessas personagens não são claras uma para a outra, mas se revelam como uma proteção, uma troca de gentilezas e de despertar para novas reflexões.

Emerenc, com seu jeito bruto e certa rudeza, fala para a escritora coisas que ela precisa ouvir e que, inicialmente a choca, mas que depois a conduz para alguma ação sobre aquilo que foi dito pela primeira. Do mesmo modo, Emerenc é amparada pela escritora, sem que a outra diga a ela explicitamente o que está fazendo por ela. A linha invisível se torna então uma linha de amparo, proteção, preocupação e afetividade, ainda que, em certos momentos, a elas pareça algo completamente distinto disso. Muito é dito no silêncio que existe entre elas.

A Porta é um excelente livro. Grato pela surpresa encontrada ao ler essa obra.



Sobre a autora:

Magda Szabó (1917 – 2007), escritora húngara e uma das vozes mais importantes da literatura europeia do século XX, nasceu em uma família protestante. Durante o período de ocupação alemã e soviética do país, estudou latim e húngaro na Universidade da sua cidade natal, trabalhou como professora, publicou dois livros de poesia e foi agraciada com o prêmio Baumgarten, em 1949. Atingiu merecida projeção internacional com a publicação do romance A Porta (1987). A sua obra está traduzida em mais de 30 idiomas e foi distinguida com inúmeros prêmios internacionais.

Ficha Técnica:
Título: A Porta
Escritora: Magda Szabó
Tradução: Edith Elek
Editora: Intrínseca
Ano: 2021
Número de páginas: 256
ISBN: 978-65-5560-219-7
Assunto: Romance Húngaro

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